Radicada há dez anos em Paris, a cantora e compositora brasileira lança novo trabalho autoral, em que reafirma suas referências musicais, com feats e letras poéticas nos dois idiomas
Ouça aqui: atabaque.lnk.to/SABORSOLAIRE
Gabriella Lima vive entre aqui e ali. Entre ça et là. Nascida no Brasil e há dez anos morando na França, a cantora e compositora experimenta o sentimento de pertencimento e não pertencimento quando está nos dois países. Tudo ao mesmo tempo. A fronteira se tornou seu refúgio – não no sentido literal, claro, mas como estado de espírito. E, hoje, o palco, sua zona franca, é o único lugar no mundo onde ela se sente inteira e completa.
No entanto, se essa dicotomia marca a existência de Gabriella, ela simplesmente desaparece em seu novo disco, o belo Sabor Solaire, o segundo da carreira – que chega às plataformas de streaming no dia 4 de abril. Ela está confortável nesses dois universos.
Mesmo exposta às influências da música internacional ou da Chanson française, a artista reforça sua conexão com brasilidade e renova os vínculos com suas referências na MPB, que vão de Caetano Veloso a Jorge Ben Jor, com uma roupagem pop, contemporânea e autoral. Gabriella criou uma simbiose tão certeira que bem que poderia ser chamada de ‘chanson brasileira’.
E apesar de boa parte das letras do novo álbum ter sido composta em português, sua língua materna, a França, sua morada, também se faz presente nesse trabalho, por meio dos feats ou mesmo do idioma, já que Gabriella canta e compõe em francês. Cantar em francês é também uma forma de a artista fazer sua música autoral chegar a outro público. Aliás, a composição bilíngue já aparecia no álbum anterior da cantora, Bálsamo (2021), e avançou ainda mais em seu cancioneiro com novo álbum Sabor Solaire.
“Compor a parte musical é mais natural para mim, vem muito fácil. A escrita, até em português é muito mais trabalhosa. Eu já estou acostumada a sentar, transpirar, pensar. Então, em francês não seria diferente. Fui atrás de curso de escrita aqui na França. Leio muito, isso foi me dando repertório e vocabulário. O francês é muito literal, diferente da licença poética, das nuances que a gente tem no Brasil. Isso passa pelo vocabulário também. É cultural, histórico e está nas músicas”, diz Gabriella, falando sobre o desafio de compor em outro idioma.
O título Sabor Solaire, o sabor solar de Gabriella, anuncia a atmosfera que predomina no disco, em letras, melodias e arranjos. Se o álbum Bálsamo refletia as batalhas pessoais e rupturas amorosas que a compositora travava em terras estrangeiras – e sua tentativa de se curar por meio da escrita –, o novo trabalho retrata uma nova fase da sua vida, mais leve, solar, e marcada por um amor tranquilo.
Como uma fotografia deste momento, Gabriella queria fazer um disco joyeux, feliz. “Eu me encontrei, sei quem eu sou, quero colocar isso para fora. E agora sei o que eu quero musicalmente. Sei exatamente o que eu quero com o som de cada uma das músicas”, diz ela.
Muito do clima solar do álbum vem, ainda, do cenário paradisíaco que Gabriella tinha diante de si enquanto compunha grande parte das novas canções. Em 2023, a artista saiu de Paris e passou uma temporada de três meses nas Ilhas Maldivas, onde trabalhou cantando em um hotel. Sua única preocupação ali, ela brinca, era não perder a hora do almoço. Com agenda de shows apenas à noite, tinha tempo livre durante o dia e criou um retiro artístico particular para ler e poder compor.
O disco Sabor Solaire também carrega, de certa forma, influências do álbum Manga (2019), de Mayra Andrade, um dos importantes nomes da música cabo-verdiana, que se tornou uma espécie de álbum de cabeceira de Gabriella. “Mayra canta em português, mas tem uma carreira muito sólida na França também cantando em francês. Ela passeia por diversos universos sem pedir licença, com muita naturalidade, e é por aí que eu quero ir.”
Com nove faixas e um bônus track (que deve ser lançado em maio), o novo trabalho já se inicia nessa atmosfera de ‘cor feliz’, com a doçura vocal de Gabriella conduzindo, em português e francês, o carnaval minimalista de Couleur Bonheur, um tipo de canção que você ouve e automaticamente se transporta para um lugar paradisíaco qualquer, ao cair da tarde, onde bate uma brisa morna e as pessoas estão dançando, alegres. É uma canção imagética.
No samba Se Me Chamar Eu Vou, primeiro single do álbum, ela faz uma versão com parte da letra em português de Suivre Le Soleil, hit viral da cantora Vanille. A versão original já traz uma sonoridade cadenciada, fazendo um interessante contraponto à letra em francês, que vai no caminho oposto: fala sobre o frio de Paris e da dificuldade de uma pessoa de fora de se adaptar a esse inverno melancólico. Vanille é parceira nessa versão e foi convidada para fazer feat com Gabriella.
Com um arranjo delicado, Atlântico foge do campo da festividade, mas não da afetividade. A música fala da saudade de alguém que está longe, mas não se trata de um amor romântico deixado para trás: Gabriella a dedicou à sua mãe, seu porto-seguro que ficou no Brasil.
Metamorfose é uma canção de autoafirmação, de autorreconhecimento, em que Gabriella celebra seu potencial, com forte presença da percussão e elementos do rap, sobretudo no momento em que a cantora exercita seu lado MC. É a favorita da compositora.
“Para mim, ela representa muita coisa. Com essa música, encontrei meu estilo. Tem o soul do Brasil, uma coisa do Jorge Ben Jor, arranjos supercontemporâneos, tem o trap, a linguagem do urbano, a percussão.”
Dedicada ao namorado francês, assim como Couleur Bonheur, Meu Lugar traz o colorido do afoxé, um certo toque de baianidade, para exaltar o amor que fica.
A deliciosa Saveur Solaire mostra como letras em português e francês podem coexistir harmonicamente numa mesma canção. Com participação de Léo Middea em duo com Gabriella, a música, meio funkeada, mostra a poética de um amor efêmero. Ela ganhou uma versão bossa nova eletrônica, com atmosfera setentista, meio Tutti Frutti, de Rita Lee, só cantada em francês, como bônus track.
Como uma espécie de interlúdio nessa narrativa solar, Entre Ça et Là soa melancólico ao Gabriella cantar sobre essa sensação de pertencimento e não pertencimento que lhe atravessa quando ela está na França e no Brasil.
Em Mistério, a cantora faz outro dueto, desta vez com Jules Jaconelli, em português e francês, sobre um relacionamento que ficou para trás, mas ainda não superado. Mistério parece ser da mesma família de Sorte, balada romântica do duo Caetano Veloso e Gal Costa – não pelo tema, mas pelo arranjo e pelo contraponto entre voz feminina e masculina.
Gabriella fecha seu tour de force com Mon Inconnu, com um tema delicado, que mexeu especialmente com ela. A canção foi composta para o pai, que já morreu e com quem ela não conviveu desde os dois meses de vida. Ela conhece algumas histórias sobre esse lado paterno da família, como o fato de seu bisavô ter sido um repentista. De certa forma, essa revelação fez algumas coisas terem sentido para ela. “Eu não sabia da onde vinha essa coisa de cantar com um monte de palavra. Sempre coloco muitas palavras”, diz ela, se referindo à sua aproximação com o rap.
Mon Inconnu não deixa de ser uma carta aberta. É como se, pela música, a compositora tentasse fazer as pazes com seu passado – e com o pai. A letra saiu toda em francês. “Eu nunca tinha conseguido compor uma música para ele, ainda mais português, mas saiu em francês. Tem palavras que a gente consegue falar em outra língua, coloca um distanciamento. Acho que não me julgo tanto cantando em francês. A palavra na nossa língua tem mais peso.”
BIOGRAFIA
A paulistana Gabriella Lima tinha tudo para seguir outros caminhos que não fossem os da música. Ela não nasceu em uma família de músicos – só mais recentemente soube que seu bisavô, por parte de pai, era repentista. Mesmo assim, sempre ouviu música e construiu, sozinha, seu próprio gosto.
Gabriella cursou Publicidade na ESPM, em São Paulo, e seguiu na área de management. A primeira vez que ela esteve na França foi em 2009, onde fez mestrado de Marketing Internacional. De volta ao Brasil, em 2010, trabalhou numa grande empresa brasileira de roupas e acessórios, em Porto Alegre, em um emprego que oferecia a tão almejada estabilidade, mas, mesmo assim, não se sentia feliz.
O despertar veio em 2012, quando ela começou a namorar um músico. Gabriella passou a viver nesse meio e se deu conta que queria fazer aquilo. Pouco tempo depois, pediu demissão e passou a se apresentar como cantora em barzinhos. Paralelamente, começou a estudar canto por conta própria e, mais tarde, aprendeu a tocar violão. “Comecei a desenvolver a parte de compositora, que até então não existia”, conta Gabriella.
Nesse circuito de bares, seu repertório incluía de tudo. Em 2014, ela se apresentava ao lado de um amigo violonista, que decidiu que iria tentar a sorte como músico em Paris. Gabriella gostou da ideia e foi também. Inicialmente, ela ficaria por três meses, mas não voltou a morar no Brasil. Por ser cantora brasileira com repertório nacional, começou a receber convites para shows e isso prolongou sua permanência na cidade.
“Ao morar fora, eu me conectei ainda mais com a cultura brasileira, porque aqui sou a cantora brasileira. Para fazer minhas gigs, shows, tive que me aprofundar muito na música brasileira, bossa nova, MPB, até no repertório de carnaval.”
Começou a cantar no cabaré parisiense Aux Trois Mailletz, consagrado clube de jazz, onde conheceu e dividiu o palco com artistas de diversas partes do mundo. O trabalho garantiu contrato e visto de permanência no país. Ela ficou ali até 2019.
Gabriella recalculou a rota: apesar de bem-sucedida como intérprete de música brasileira na França, ela queria investir na sua produção autoral. Veio, então, um novo desafio: o de chegar ao público – brasileiro e francês, principalmente – com as próprias canções. Um processo que teve início com o disco de estreia, Bálsamo, em 2021, e se fortalece agora com novo álbum Sabor Solaire, que será lançado pelo selo criado pela artista, o BIELLA REALCHORDS.
(Adriana Del Ré)
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